sexta-feira, 2 de junho de 2017

SOBRE NÓS, SERES HUMANOS (SIMPLES ASSIM 9)


Humanização é um assunto que os profissionais da saúde discutem, fazem cursos, escrevem artigos. Falar sobre humanização sempre me provoca dois pensamentos imediatos. O primeiro é que este tema deveria ser discutido em todos os campos de formação e de atuação humana. O segundo é que, se afirmamos que humanização é um tema relevante e uma prática fundamental, quando foi que começamos a deixar de ser humanos?!
Edgar Morin, grande pensador francês, diz que “cada ser humano carrega, em potencial, o pior e o melhor do humano, [e] que a desumanidade faz parte da humanidade”. Ou seja, todos nós somos seres potencialmente amorosos e vingativos, pois até mesmo o tirano mais desumano que habita o nosso imaginário é capaz de se apaixonar e ter amigos.
Neste sentido, ao se falar em humanização, presume-se que já conseguimos fazer a autocrítica e compreender que somos seres complexos, cheios de potencialidades para o bem e para o mau. No entanto, basta passar trinta minutos nas redes sociais ou assistir duas pessoas conversando, com pontos de vista contraditórios, para concluir que estamos muito distantes dessa autocrítica.
Nessas situações é comum observarmos que cada pessoa se agarrada às suas crenças, quase sempre tomadas como verdades absolutas, para se colocar no lugar de detentor da verdade e modelo de bondade humana. Se é verdade que “a desumanidade faz parte da humanidade”, porque é tão difícil nos aceitarmos como seres contraditórios que somos?
O Morin faz, no meu modo de entender o mundo, uma belíssima análise de quem somos. Diz ele: “O homem é racional, louco, produtor, técnico, construtor, ansioso, [...] instável, erótico, destruidor, consciente, inconsciente, mágico, religioso, neurótico; goza, canta, dança, imagina, fantasia. Todos esses traços cruzam-se, dispersam-se, recompõem-se conforme os indivíduos, as sociedades, os momentos, aumentando a inacreditável diversidade humana”. Sim, a análise de Morin é complexa e por isso mesmo acolhe nossos traços mais contraditórios.
Queremos sempre mostrar o nosso melhor, vender a nossa melhor imagem. Muito cuidado quando se filiar às ideias de outra pessoa porque ela se diz um cidadão do bem. Na prática, ser uma pessoa razoável é mais difícil (e mais trabalhoso) do que ser uma pessoa boa, porque isso implica em ser capaz de ponderar e conseguir equilibrar esses muitos que somos, esses múltiplos traços contraditórios que temos.

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