sexta-feira, 23 de junho de 2017

ARTE PARA NÃO MORRER DA VERDADE

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche escreveu certa vez: “temos a arte para não morrer da verdade”. A arte, todas as artes – a música, a literatura, as artes plásticas e visuais – é o espaço do possível e do impossível, do real e do imaginário, da provocação e do acolhimento, da acomodação e da desacomodação. Lugar onde temos permissão para ultrapassar as fronteiras do mundo real com segurança e a partir do qual podemos repensar nossa realidade de modo mais aberto e mais crítico, por vezes de um jeito mais lúdico e divertido, outras de maneira tensa e inquietante.
A cerca de um mês o Ministério da Educação (MEC) decidiu recolher 93 mil exemplares do livro “Enquanto o sono não vem”, das Escolas Públicas de Ensino Fundamental. O livro, de autoria do escritor, ator e contador de histórias José Mauro Brant, reúne novas versões de oito contos populares, entre eles "A triste história de Eredegalda", que fala do desejo de um rei em se casar com uma de suas três filhas. Diante da negativa, a menina é castigada e termina sendo presa numa torre.
O argumento para a retirada dos 93 mil livros das escolas é de que o conto "A triste história de Eredegalda" faria apologia ao incesto.  Veja bem, o fato de uma obra tematizar incesto, não quer dizer que faça apologia ao incesto. Pelo contrário, os contos de fadas cumprem com uma função primordial que é permitir ao leitor vivenciar situações de medo, angústia, raiva, perda, por empréstimo, a partir das histórias de seus personagens. É porque a pessoa vivencia esses sentimentos negativos nos livros, assim como em filmes, séries e telenovelas, que não precisa trazê-los para a vida real.
Não é negando ou escondendo a existência de violência no mundo que ajudaremos nossas crianças a transformá-lo num lugar melhor para se viver. Afinal, quantas vezes as crianças ficam junto na sala, enquanto os pais assistem aos telejornais e novelas?! Ou seja, nossas crianças são postas o tempo todo em contato com a realidade, de modo orgânico e direto, numa narrativa que é do mundo adulto.
Quanto às crianças, não às subestimem, porque assim como Eredegalda, elas são capazes de discernir o que é certo do que é errado, principalmente quando se lhes permitem discutir sobre essas questões.
A arte promove o pensamento crítico, amplia a capacidade de olhar, ao mesmo tempo que permite a cada pessoa perceber melhor o mundo e perceber-se no mundo. Isso, no entanto, acontece de um modo subjetivo e indireto, cada pessoa compreende a arte de modo diferente em diferentes momentos da vida, porque dia a dia amadurecemos e nos modificamos. Qualquer forma de barrar o acesso à arte é limitadora e empobrecedora!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

A PAIXÃO DE DIZER / 2 - HISTÓRIAS PARA MUDAR O MUNDO 2017

Participo desde o primeiro ano do Festival Internacional Histórias para cambiar el mundo. Acho essa ação incrível e acredito de verdade no poder transformador das palavras. Cada ano procurei desenvolver uma ação diferente e todas elas me encheram de alegria. Esse ano, no entanto, estou praticamente sem voz. Lá se vão vinte dias que minha voz está brincando de esconde esconde. Mas não queria deixar essa lacuna. Narrar é preciso, mesmo quando a voz falha. Assim sendo, decidi partilhar minha narrativa virtualmente. Dentre as histórias, escolhi esse pequeno e lindo conto do Eduardo Galeno, que tão bem fala de nós, narradores orais.

NENHUMA HISTÓRIA A MENOS


A história da humanidade é repleta de episódios que falam sobre o perigo que o acesso à informação sempre representou aos “donos do poder”. Hoje a informação é livre, de forma indiscriminada e, muitas vezes, distorcida.  Neste contexto, a capacidade de ler o mundo e as letras de modo crítico e lúcido, torna-se um perigo ainda maior para aqueles que necessitam de um povo que use antolhos no lugar de lentes.
No Brasil atual vê-se uma avalanche de discursos moralistas, despejados sobre nossas vidas pelos que se intitulam senhores da moral e dos bons costumes, os tais cidadãos de bem, engessados pelos seus dogmatismos, falso moralismos e preconceitos. Discursos que se fundamentam não em estudos, não no diálogo compartilhado, na escuta, na troca de ideias, mas nas crenças do que pensam ser melhor. Acontece que o que penso ser o melhor para o meu filho, pode não ser o melhor para o seu. Por isso é que não se pode gerenciar uma instituição, cidade, estado ou nação com o que se pensa ser o mais adequado para uma pessoa ou um grupo de pessoas apenas.
No início do mês de junho o Ministério da Educação (MEC) decidiu recolher 93 mil exemplares do livro “Enquanto a noite não vem”, das Escolas Públicas de Ensino Fundamental. O livro, de autoria do escritor, ator e contador de histórias José Mauro Brant, reúne novas versões de oito contos populares, entre eles "A triste história de Eredegalda", que fala do desejo de um rei em se casar com a mais bonita de suas três filhas. Diante da negativa, a menina é castigada e termina sendo presa em uma torre.
O argumento para a retirada dos 93 mil livros das escolas é de que o conto "A triste história de Eredegalda" faria apologia ao incesto.  Veja bem, o fato de uma obra tematizar incesto, não quer dizer que faça apologia do incesto. Pelo contrário, os contos de fadas cumprem com uma função primordial que é permitir ao leitor vivenciar situações de medo, angústia, raiva, perda, por empréstimo, a partir das histórias de seus personagens. É porque a pessoa vivencia esses sentimentos negativos nos livros, assim como em filmes, séries e telenovelas, que não precisa trazê-los para a vida real.
Não é negando ou escondendo a existência de violência no mundo que se ajudará nossas crianças a transformá-lo num lugar melhor para se viver. Afinal, quantas vezes as crianças ficam junto na sala, enquanto os pais assistem aos telejornais e novelas?! Ou seja, nossas crianças são postas o tempo todo em contato com a realidade, de modo orgânico e direto, numa narrativa que é do mundo adulto. Essa situação tão real e cotidiana é que deveria preocupar aos adultos, porque esta sim apresenta uma narrativa que pode aterrorizar de fato uma criança.
O livro de José Mauro Brant foi publicado em 2003 e comprado pelo governo federal, através do Programa de Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), em 2005 e novamente em 2014. Antes de ser selecionado pelo MEC, ele foi avaliado por uma equipe composta por doutores e mestres especialistas do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale) da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ou seja, ele não caiu de paraquedas nas escolas!!
Se os novos avaliadores do MEC (se é que há uma comissão) acreditam que este conto é impróprio para a faixa etária indicada, não poderiam ter apenas reclassificado para outra faixa etária? Não há justificativa razoável para o recolhimento de 93 mil livros das escolas da Rede Pública. Antes se oferecesse aos professores qualificação profissional como mediadores de leitura. Há outros contos no livro, se você não gosta de um conto, não o leia.
Quanto às crianças, não às subestimem, porque assim como Eredegalda, elas são capazes de discernir o que é certo do que é errado, principalmente quando se lhes permite discutir sobre essas questões. Quando não são capazes de compreender uma história porque ainda não têm maturidade suficiente para elaborar questões mais complexas, a leitura acontecerá naturalmente de modo superficial. O adulto não precisa intervir de modo tão direto.
A arte promove o pensamento crítico, amplia a capacidade de olhar, ao mesmo tempo que permite a cada pessoa perceber melhor o mundo e perceber-se no mundo. Isso, no entanto, acontece de um modo subjetivo e indireto, cada pessoa compreende a arte de modo diferente em diferentes momentos da vida, porque dia a dia amadurecemos e nos modificamos. Qualquer forma de barrar o acesso à arte é limitadora e empobrecedora!
Léla Mayer

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O BRINQUEDO ENQUANTO POSSIBILIDADE TERAPÊUTICA: AULA DE FISIOTERAPIA NEUROPEDIÁTRICA NA GARATUJA MUNDO LÚDICO

Hoje eu tive a alegria de levar minha turma de Fisioterapia Neuropediátrica, do Curso de Fisioterapia da Unisc, para uma aula diferente, num espaço muito bacana, chamado Garatuja Mundo Lúdico. Foi um desafio deslocar a turma para fora do ambiente da Universidade, à noite, para uma loja de brinquedos. Apostei sem saber se os alunos acolheriam a proposta, se iriam para esse encontro tão diferente. E para minha alegria, eles foram chegando com olhinhos curiosos. Quando chamei todos para iniciarmos a conversa o espaço foi o chão, melhor tatame do mundo para trabalhar com crianças. E ali fui iniciando a conversa, pensando nos jogos e brinquedos como possibilidades reais para a  intervenção fisioterapêutica.  Penso que é um grande desafio para o fisioterapeuta que deseja trabalhar com crianças conduzir a terapêutica de modo que a criança não perceba que está fazendo fisioterapia e permitir-se usar o brinquedo sem perder o foco do objetivo fisioterapêutico que deseja alcançar. Isso exige experiência, desejo e estudo aprofundado, que envolve, além da fisiopatologia, métodos e técnicas de avaliação, abordagens terapêuticas, um profundo estudo do neurodesenvolvimento e das teorias da infância e do brincar. A aula de hoje foi um convite para que possam ousar trilhar esse caminho. Estou muito feliz com a participação desses queridos e o desejo de aprender mais e fazer diferente. A Fisioterapia Neuropediátrica é carente de Fisioterapeutas que ousem na eficiência técnica, sem abrir mão dos bons afetos, porque um não anula nem desqualifica o outro.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Gratidão imensa aos amigos Kellen e Cássio Filter, que acolheram
a ideia e abriram as portas da Garatuja Mundo Lúdico
para essa experiência maravilhosa!! 

domingo, 18 de junho de 2017

HISTÓRIAS PARA AQUECER O CORAÇÃO E TRANSFORMAR O MUNDO


O outono e o inverno são estações que nos convidam ao recolhimento e nos convocam para o estar juntos. Essa é uma escolha possível, não é preciso uma pausa de um dia inteiro, pode ser um instante em que você decida desacelerar e puxar o freio de mão para estar com outra pessoa, apenas pelo prazer de estar, tomar um chimarrão, ou um café, e jogar conversa fora.
E se você quiser trazer as crianças para perto, as histórias, os advinhas, os contos de fadas ou de assombração, são sempre uma boa razão para tirá-las de outras distrações cotidianas e tecnológicas e colocá-las mais pertinho dos adultos.
Você sabia que desde 2011, no mundo todo, junto com a chegada do inverno aqui no Hemisfério Sul e do Verão no Hemisfério Norte, celebramos também chegada de um novo ciclo de vida através da narração de histórias?!
Desde 2011, todo dia 21 de junho, acontece uma ação mundial chamada  Histórias para mudar o mundo. Este evento é uma ação voluntária, organizada pela Rede Internacional de Contadores de Histórias/ Red Internacional Cuentacuentos (RIC).  O objetivo principal desta ação é o desejo de intervir em nome de todos aqueles que sofrem qualquer tipo de discriminação no mundo, através da palavra que encanta e acolhe.
A proposta é bem simples, neste dia a RIC chama todas as pessoas que queiram participar dessa grande rede de boas energias a partilhar histórias contadas a partir de livros ou então histórias inventadas na hora e contadas “de boca”, como gostam de dizer os pequenos.
Nos cinco cantos do mundo a Rede Internacional de Contadores de Histórias convida as pessoas, leitores, narradores espontâneos, bibliotecários, professores, pais, avós, jovens, enfim, todos aqueles que queiram participar, para narrar contos, poesias, causos, em diferentes locais. Toda ação é válida, mesmo que pequena! Você pode contar histórias numa roda de amigos, numa sala de aula, num hospital, numa praça, numa biblioteca, num centro cultural, ou na sala de casa. Afinal, todo lugar é lugar para uma boa história!
Com estas ações estaremos multiplicando o efeito desta grande celebração que a Rede propõe. E por meio deste estar juntos que as histórias oportunizam, contribuiremos para a construção de um mundo um pouco melhor, mais consciente, sereno e justo. A ferramenta é a palavra, mas não qualquer palavra. Não os xingamentos, não as agressões, mas a palavra poesia, a palavra conto, a palavra encontro.
Entre na roda, jogue boas energias para o universo (e receba dele), aproveite esse dia para desacelerar e acreditar que uma bela história pode mudar o mundo de alguém! Se quiser aproveitar para celebrar o início do inverno durante o feriado ou no final de semana que o antecede, aproveite. O importante é estar com as pessoas, partilhando palavras amorosas e a esperança de um mundo melhor!!

domingo, 11 de junho de 2017

O QUE NECESSITAS É AMOR

Há tantos tipos de amor que é impossível passar pela vida sem experimentar algum deles: amor passional, fraterno, de pais a filhos, de amigos. O amor impetuoso, o maduro e mesmo o amor próprio. Todos vão enchendo-nos o coração. Mas igual a tudo, ao amor tampouco convém passar do limite.
O amor rodeia-nos em cada momento, não só um dia do ano, mas sim todos os dias que compartilhamos com aqueles que nos conhecem.
Um amor que se multiplica para acolher os novos membros da família com que sonhamos. Um amor que nos pega de surpresa, ainda que num encontro casual que nos acompanhará toda a vida. Um amor que pode nos sufocar, mas está aí, sempre. Porque ainda que às vezes não saibamos compreendê-lo, o amor está em todas as partes.
Feliz dia a todos os apaixonados pela vida!!

Texto extraído de "O que necessitas é amor", episódio 106 da série galega "Padre Casares"
(http://www.crtvg.es/tvg/a-carta/capitulo-106-o-que-necesitas-e-amor-1)

sexta-feira, 9 de junho de 2017

CORPO, VOZ E MOVIMENTO, COM ROGER CASTRO - MÓDULO IV DO CURSO LITERATURA INFANTOJUVENIL NAS MÚLTIPLAS LINGUAGENS


Hoje foi dia de ouvir meu querido amigo Roger Castro falar, narrar e dinamizar na oficina “Corpo, voz e movimento” – IV Módulo do Curso Literatura Infantojuvenil nas Múltiplas Linguagens, que acontece no auditório da Livraria Paulinas, em Porto Alegre. O Roger tem uma linda trajetória de vida que foi e vai lhe constituindo enquanto artista e pessoa sensível e competente que é. As propostas do Roger nessa manhã fria e chuvosa desacomodaram o corpo e o pensamento e aqueceram o coração de quem se permitiu vivenciar alegremente esse momento.
Penso que as colocações do Roger nessa manhã, além de pertinentes, foram absolutamente necessárias, pois falar sobre narração oral pode ser um tema complexo. O que é e o que não é contação de histórias? Teatro é contação de histórias? Animação cultural é contação de histórias? Contar histórias é mediar leitura? Estas são perguntas que estão sempre sendo feitas e não há consenso para responde-las.
Poder refletir sobre o fato de que nem toda narração aproxima o leitor do texto literário (ao menos não de modo linear), que animação cultural não é (necessariamente) mediação de leitura, que é preciso conhecer o público e pensar estratégias que sejam adequadas para cada situação posta, que o percurso para a mediação literária pode ser mais longo do que gostaríamos, é entrar numa zona que é conflitante para muitos profissionais que trabalham com narração oral e mediação de leitura, mas o Roger ousou. Trouxe uma discussão necessária, ao mesmo tempo que valorizou o trabalho com a palavra de muitas formas distintas.
Uma alegria imensa poder conhecer o Roger educador, para além de seus muitos personagens, mas que também os constituem. Saio desse encontro com muitas inquietações absolutamente necessárias para que eu possa florescer um pouco mais as muitas que sou. Gratitude, Roger!!