quinta-feira, 16 de agosto de 2018

SE VOCÊ NÃO SABE O QUE DIZER, NÃO DIGA


Quando um filho perde um pai, quando um pai perde um filho, as pessoas querem dizer algo que conforte. Às vezes, quando se perde um ente querido, não se quer ouvir nada. Há momentos que queremos apenas ficar sós e outros que um sorriso amigo ou um abraço acolhedor são suficientes.
Nem sempre palavras confortam. Nem todas palavras confortam. Eu, particularmente, acho “pêsames”, ainda que uma expressão correta, uma palavra ruim para um momento de pesar. Ela parece aumentar a tristeza, como se o pesar da pessoa que cumprimenta se somasse ao da pessoa que sofreu a perda, potencializando o mesmo. Está correto, mas acho ruim.
Além de “pêsames”, há um repertório de frases prontas muito comuns, do tipo: “foi melhor assim”, “descansou”, “agora todos poderão descansar”, “Deus sabe o que faz” ou “está em um lugar melhor”. Às vezes dá vontade de perguntar: - Sério? Mas a maior parte das pessoas escolhe, por educação, ficar com cara de paisagem.
Pare e pense antes de falar:
* Foi melhor assim! – Mesmo? Como você sabe? Estava lá, viveu cada momento, partilhou das batalhas, das vitórias e das derrotas? Se não, nem pense em falar “foi melhor assim”, pois você não sabe e essa pode não ser a percepção de quem esteve a lutar pela vida.
* Agora todos poderão descansar! – Como você pode julgar o cansaço alheio? Em momentos difíceis nosso sistema nervoso reconfigura o modo “cansaço”. Além disso, cada um tem um limiar diferente, um modo distinto de lidar com seu cansaço. Não julgue o cansaço alheio pelo seu.
* Deus sabe o que faz! – Nem sempre o que aconteceu foi obra divina, muitos fatos ou intercorrências podem ter levado ao desfecho da história. Então, especialmente se você desconhece a crença alheia, melhor deixar Deus fora disso.
* Está em um lugar melhor! – Na verdade você não sabe. Talvez o familiar acredite em paraíso, talvez não. Talvez você acredite em paraíso, talvez não. Se essa não é uma crença forte sua, não jogue palavras ao vento.
Há expressões bem mais razoáveis para falar nesses momentos. “Minhas condolências”, é formal, mas é razoável. “Meus sentimentos”, é delicado. “Lamento sua perda” é suave. “Sinto muito pela sua perda”, é sensível. Todas essas são boas formas de expressar empatia. “Estou contigo”, “conta comigo”, “força na peruca”, “força na paçoca”, são expressões menos formais, mas também cheias de empatia.
Nem sempre sabemos o que dizer para confortar um amigo, nem sempre precisamos dizer algo para confortar um amigo. Mas, se não sabemos o que dizer, é melhor não dizer nada. Estar próximo é, quase sempre, suficiente.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

CRIANDO NARRATIVAS QUE FAÇAM SENTIDO


Alguns talvez pensem que perdi a razão, por tecer narrativas ficcionais para acomodar os sentimentos da partida do filho. Mas loucos, em sua maioria, criam narrativas desconexas. Eu busco conexão através das narrativas, teço algumas, crio outras.
Somos seres narrativos, buscamos sempre explicações que nos façam sentido e que deem sentido às nossas vidas, seja no campo da mitologia ou da ciência. Precisamos de algo que faça sentido, sempre. Mesmo que esse sentido só seja razoável para nós mesmos.
Quando as circunstâncias da vida podem abalar o sentido da própria vida, os pensamentos ficam a girar dentro da cabeça como num furacão. Particularmente, preciso de narrativas que aquietem o meu furacão interno e me deem sentido, me apontem um norte.
Quando digo que meu filho partiu para se aventurar em Nárnia, em Avalon, ou no País das Maravilhas, não estou sendo louca, nem delirando, nem perdendo a razão. Estou sim, buscando uma razão que permita deixa-lo partir com alegria. Seria diferente se eu falasse no paraíso? Para mim ainda seria uma construção narrativa em busca de algum sentido.
Pois bem, busco narrativas que façam sentido, que me apontem nortes razoáveis. Você até pode pensar: - Mas isso é ficção! Pois saiba que o cérebro humano em algumas situações tem uma dificuldade enorme para diferenciar ficção e realidade.
Quem já experimentou um episódio agudo de labirintite sabe do que estou falando. Num episódio de vertigem, o cérebro não sabe se as coisas estão a girar de verdade ou de vertigem. O cérebro informa ao corpo que tudo gira e o corpo responde com náuseas, alteração dos sinais vitais, suor, mal-estar. O corpo apenas responde às informações, ainda que ficcionais.
Então, pensar em narrativas que façam sentido, ainda que ficcionais, aquieta o pensar, acalenta a alma, acalma o corpo, permite o viver de um modo mais razoável e feliz.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

CHEGADAS E PARTIDAS


Quando um filho nasce, a vida inteira se modifica, é preciso reorganizar rotinas, aprender novos hábitos e abrir mão, ainda que por algum tempo, de alguns hábitos antigos.
Quando um filho nasce, nasce uma mãe e um pai. Ser pai e ser mãe é um aprendizado constante, de uma vida toda, porque os filhos crescem, aprendem, se modificam e nós crescemos, aprendemos, nos modificamos junto com eles.
Quando um filho cresce, cria asas e, por vezes, quer voar para longe dos pais, descobrir novos lugares, viver novas aventuras.
Na adolescência, alguns pais incentivam seus filhos a participar de intercâmbios, para que conheçam outras culturas, aprendam novas línguas. Na vida adulta, alguns viajam para fazer cursos, estágios ou em busca de oportunidade de trabalho em outros países.
Esperamos, como pais, que esses afastamentos aconteçam de maneira progressiva e apenas depois dos filhos já um pouco crescidos. Essa semana um filho partiu e sem respeitar cronologia alguma, até porque o seu tempo não se contava como o nosso, nem suas viagens eram óbvias como as nossas.
Em oito anos de vida o Arthur viveu mais aventuras do que a maior parte dos adultos que conheço. Em seus oito anos de vida na terra o Arthur ouviu mais canções e mais histórias do que a maior parte dos adultos que conheço e através delas seu mundo foi sempre repleto de significados. Uma vida só tem sentido quando é repleta de significados e a do Arthur foi e seguirá sendo rica de sentidos, repleta de significados.
Diferente do que muitos pensam, seu nome não foi escolhido porque era um nome bonito, ou por analogia com o lendário Rei Artur. Essa brincadeira nasceu depois. Arthur se chama Arthur porque o João, irmão mais velho, tem um amigo querido que se chama Arthur. Quer simbologia mais linda que essa. Um nome emprestado de um grande amigo, como quem diz: “Irmão, te quero amigo nessa medida!”
Hoje as brumas de Avalon se abriram e nosso Arthur resolveu que era hora de viajar, viver novas aventuras, revisitar amigos. Há muitos universos para serem explorados e ele sabe muito bem disso, aprendeu nas histórias que em outras terras ele pode correr, virar cambalhotas, dançar. Aqui, nesse planetinha, era difícil fazer tudo isso com seu corpo frágil. Mas em Nárnia, no Sítio de Lobato, em Avalon, no Asteróide B612 ou em qualquer país mais distante, seu corpo, que agora é brisa, pode fazer muitas piruetas.  
Uma das últimas histórias que lemos juntos, assim de pertinho (porque seguiremos lendo histórias pela vida a fora), foi O Pequeno Príncipe e foi aquele menino frágil e pequeno como ele que lhe ensinou muitas lições. É que criança entende língua de criança, adulto é que complica a vida.
O Pequeno Príncipe sabia que para voltar pra casa e reencontrar sua rosa precisava deixar sua casca aqui na terra, pois ela era pesada demais para ser levada junto até o Asteroide B612. Sabia também que não era preciso sofrer, pois, como disse ele, uma casca de árvore não é triste.
O Arthur entendeu e acolheu a experiência do amigo príncipe e quis se aventurar com ele. Eu, como mãe, acolhi sua decisão. Há que se respeitar a decisão de um filho tão cheio de sabedoria.
Despedidas são sempre difíceis, mas escolhi trocar a dor pelo amor, o sofrimento pelos bons sentimentos e permitir que ele viajasse feliz, porque não deixamos de ser pai e mãe quando um filho viaja, seja para a Austrália, seja para Nárnia.
Quando um filho parte, a vida inteira se modifica, é preciso reorganizar rotinas, aprender novos hábitos e abrir mão, ainda que por algum tempo, de alguns hábitos antigos.
Quando um filho parte, continuamos sendo mãe e pai. Ser pai e ser mãe é um aprendizado constante, de uma vida toda, porque os filhos crescem, aprendem, se modificam e nós crescemos, aprendemos, nos modificamos junto com eles.