Na sexta-feira (26/05/2017) visitei pela segunda vez o Acervo Elis Regina, na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre (RS). Foi lá no Acervo Elis Regina que, entre tantas memórias interessantes eu encontrei uma cópia do documento emitido pelo Gabinete do Ministro do Exército, em 10/12/1971. O documento é o registro de uma investigação feita sobre a artista em decorrência de uma entrevista concedida pela cantora a uma Revista Holandesa. O exército da época fez então uma pesquisa sobre a trajetória de Elis Regina dos anos que antecederam a investigação até aquele momento. Assim sendo, segundo o documento, "Procedidos levantamentos necessários constatou-se":
* Que a cantora esteve na Holanda no início de 1969, ocasião em que concedeu entrevista coletiva à imprensa, num ambiente formal e seguindo as normas de relacionamento.
* Viajou para a Itália e Inglaterra no princípio de 1971, não tendo feito declarações à imprensa.
* No Brasil jamais concedeu entrevista a qualquer órgão de imprensa estrangeiro.
* "Nos anos de 1966 e 1967 atuou ao lado de alguns cantores de esquerda, considerados subversivos após as agitações de 1968, destacando-se entre eles, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré e Edu Lobo. Fazia parte do grupo Paulo Machado de Carvalho, da TV Record, Canal 7 de São Paulo e da Rádio Jovem Pan. Na época, anos de 1966 e 19667, esse grupo foi considerado de orientação filo-comunista".
* "É muito afeita a gravar músicas de protesto, inclusive ligadas ao movimento do 'poder negro' norte - americano, apesar de não demonstrar ligação com o mesmo".
* "Em 22/11/1971 foi convidada a prestar esclarecimento no Centro de Relações Públicas do Exército, por solicitação do CIE, quando caracterizou sua posição de artista isolada e desligada de qualquer vínculo político ideológico, tendo inclusive negado terminantemente ter recebido, durante entrevista concedida na Holanda, qualquer pergunta sobre Cuba ou outro assunto político e mesmo relacionado com o Brasil e o seu povo".
O documento fala ainda sobre os contratos que Elis Regina tinha com rede de TV e gravadora, sobre a frágil saúde de Ronaldo Bôscoli, seu marido na época, bem como dos conflitos familiares. Uma aula sobre o tempo de ditadura militar.
O Acervo Elis Regina é um lugar que, por si só, merece ser visitado. Mas a visita fica ainda mais bacana quando, antes ou depois, atravessamos o corredor para visitar o quarto do nosso querido poeta Mário Quintana. O segundo andar da Casa de Cultura Mário Quintana é mesmo um lugar repleto de arte e histórias.