quinta-feira, 5 de setembro de 2019

SOBRE SER CHAMA


Quando uma vela é usada para acender outra, sua chama não se extingue, ou diminui, porque acendeu uma nova vela, ela se mantém igual. No entanto, a outra vela só ganha luz porque alguém emprestou sua chama.  Cada vela pode queimar solitária, mas quando sua cera terminar, ela deixa de existir. No entanto, se uma vela partilhar o fogo, sua chama continuará existindo, mesmo depois que sua cera derreter por inteiro. E se a vela que recebeu o fogo seguir partilhando, a chama da primeira vela pode continuar existindo. E quanto mais velas forem acesas com a sua chama, mais tempo sua luz se manterá viva, aquecendo, iluminando, mostrando o caminho a outros seres.
A primeira história do belíssimo “Livro dos Abraços”, do escritor uruguaio Eduardo Galeano, é uma metáfora sobre nós, seres humanos, e nossa luz. Em seus livros, Galeano fala sobre a vida e tudo aquilo que a torna mais ou menos humana, através de uma prosa poética repleta de metáforas. Há quem não aprecie, quem prefira textos mais diretos. Mas quem gosta de metáforas, poesia em prosa e uma pitada generosa de criticidade, deleita-se ao ler sua obra.
Em “O mundo”, Galeano conta que certa vez um homem subiu aos céus e que de lá pode contemplar a vida humana. Quando voltou, o homem disse que, observando lá do alto, somos um mar de fogueirinhas. E ainda, que não existem duas fogueiras iguais, cada uma brilha com luz própria entre todas as outras. Observou também que certas fogueiras não iluminam, nem queimam, mas que outras incendeiam a vida de tal modo, que é impossível se aproximar delas sem deixar-se aquecer e até incendiar por sua chama.
Em sua narrativa Galeano aponta nossas diferenças com respeito e amorosidade. Está tudo bem em sermos diferentes, grandes, pequenos, velhos, novos, multicoloridos, pluriafetivos. A questão é, nossa luz é capaz de iluminar a vida de outras pessoas? Estamos dispostos a deixar nossa chama aquecer outros seres? Conseguimos acender outras fogueiras, velas, lampiões, com a nossa chama?
No dia a dia nos deparamos com pessoas iluminadas, que com um sorriso já nos incendeiam, nos encantam, nos motivam. Encontramos também, verdadeiros extintores de incêndio, que já chegam apagando qualquer possibilidade de aproximação. Há também os que são vento frio, que gelam a vida e sopram discretamente a chama da vela ao lado.
A pergunta que carrego comigo é, quem eu quero ser e quem eu consigo ser no meu dia a dia? Nem sempre consigo ser fogueira de São João, mas posso escolher partilhar o foguinho que me habita com outras pessoas, para que, quando minha chama estiver fraca ou apagar, outros possam me acender novamente.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

PORQUE A PRESSA?

Segunda-feira, como já se anuncia, é o segundo dia da semana. O primeiro é domingo, dia de descanso em algumas religiões e no calendário de muitos seres humanos. “Onde queres descanso, sou desejo”, escreveu ela no sábado à noite, anunciando o domingo. Fernanda Young era uma mulher cheia de “quereres”, desejos, opiniões e múltiplos talentos. Fernanda, que era jovem até no nome, trazia consigo a rebeldia da juventude e a maturidade da adultice.
As gentes, que admirávamos o trabalho, a força rebelde e a lucidez sensata de Fernanda, ficamos sem chão e sem entender como pode uma mulher jovem, cheia de vitalidade, que cuidava da saúde física e mental, morrer aos 49 anos de idade, em função de uma crise de asma. É verdade que há muitas pessoas jovens que morrem precocemente por razões estúpidas, mas quando se trata de alguém por quem nutrimos alguma empatia, sentimos mais forte a perda.  
Fernanda, que como poucos fez a gente rir do ridículo que nos habita, dando vida a’Os Normais, Rui e Vani, ao nonsense Jorge Horácio, de Minha nada mole vida, à Jessica, Ana Maria e Marion, que surtavam durante as aulas de Yoga, entre tantos outros personagens hilários, loucos, críticos, ácidos, normais, que despertavam em nós curiosidade e empatia. Fernanda Young partiu cedo e sem aviso prévio. Ela, que havia escrito em seu Instagran, apenas 48 horas antes de sua partida: “sou uma mulher de 50 anos que sonhou alto e realizou muito. E estou longe de encerrar minha jornada nessa orbe”.
A verdade é que não sabemos o dia que vamos partir, a gente não planeja ele, muitos evitam até pensar, como se não pensando, a morte não fosse acontecer. Por outro lado, planejamos a vida. Muitos passam tanto tempo planejando e correndo para cumprir tarefas, que esquecem até de viver o cotidiano. Não se trata de viver cada dia como se fosse o último, mas viver cada dia como se fosse único.
Dia desses uma pessoa me falou que agosto já tinha terminado e que a Oktoberfest (tradicional festa da cidade onde moro) já estava aí. Eu lhe perguntei o porquê dessa afobação em acelerar ainda mais o tempo que já corre apressado? – Mas é verdade, moça!!, me respondeu ele. Eu então lhe disse que não, que ainda faltavam alguns dias para terminar agosto e havia um setembro inteiro para trazer a primavera e a festa das flores, antes de chegar a Oktoberfest. 
Fernanda partiu precocemente, mas viveu intensamente. Nós, muitas vezes, diminuímos a intensidade para viver apressadamente, como se a vida fosse desimportante, como se pudéssemos em algum momento recuperar o tempo não vivido. Não podemos. Os filhos crescem, as pessoas mudam e se mudam, partem para outras aventuras e só então percebemos o que perdemos. A partida precoce de Fernanda Young deixou piscando em mim um luminoso onde está escrito: Não perca tempo. Viva!

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

PARADOXOS


Assim está escrito no Aurelinho (minidicionário da língua portuguesa brasileira): Pa.ra.do.xo sm. 1. Conceito que é ou parece contrário ao senso comum. 2. Absurdo. 3. Filos. Afirmação que vai de encontro a sistemas ou pressupostos que se impuseram como incontestáveis ao pensamento.
Em 1994 Gilberto Gil escreveu sobre o paradoxo de uma novidade que ♫ “veio dar à praia, na qualidade rara de sereia [e que tinha] / Metade o busto de uma deusa Maia/ Metade um grande rabo de baleia”. Dizia ele que ♫ “A novidade era o máximo/ Do paradoxo estendido na areia/ Alguns a desejar seus beijos de deusa/ Outros a desejar seu rabo pra ceia” ♫. Gil é genial com suas palavras que brincam ao olhar para as maluquices do mundo contemporâneo, nos fazendo pensar sobre outros tantos paradoxos.
A quarta semana do mês de agosto desperta em mim sentimentos e pensamentos que podem parecer paradoxais, mas que são absolutamente complementares. Entre os dias 21 a 28 de agosto, acontece a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, com o objetivo de abrir debates e colocar a sociedade em reflexão sobre questões que envolvem inclusão e igualdade de direitos e oportunidades.
Todos os anos, durante a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência, é celebrado também o Dia do Folclore. E qual a relação entre o Dia do Folclore e a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência? Eu poderia responder que nenhuma. Mas, você já reparou que muitos dos personagens de nosso folclore brasileiro trazem em seus corpos marcas distintas, que aqui no mundo real chamamos de deficiências? Ao Saci falta uma perna, à Mula sem Cabeça falta a cabeça, o Curupira tem os pés voltados para trás e a Iara um rabo de peixe.
A Semana Nacional da Pessoa com Deficiência e o Dia do Folclore não tem relação direta. Mas poderiam ter, na medida em que ambos nos chamam à reflexão para lembrar daquilo que nos torna verdadeiramente humanos, a memória, o respeito, a empatia e o cuidado.
Ao falar sobre o paradoxo da sereia, Gil ainda escreveu: ♫ Ó mundo tão desigual, tudo é tão desigual/ De um lado este carnaval, de outro a fome total” ♫ E se fôssemos capazes de sonhar e criar um mundo menos desigual, com mais respeito e empatia entre todos os seres? Talvez, se acreditássemos nas pessoas como as crianças pequenas acreditam nos seres fantásticos, sem questionar suas potencialidades, apesar de suas diferenças físicas, fôssemos capazes de aprender mais uns com os outros e fazer mais uns pelos outros.