quinta-feira, 15 de agosto de 2019

BEBENDO NA GARRAFA DE ALICE


 
Certa vez uma criança me perguntou se o personagem de um dos meus livros infantis era meu filho de verdade. Eu respondi que sim. Outra criança disse: Mas ele é só um personagem dentro de um livro! Eu respondi que todos os personagens são como filhos para os escritores. Ah, mas então não é filho de verdade! – Comentou outro menino.
Num outro episódio de diálogo com crianças uma delas me perguntou quem era aquela pessoa que havia escrito na contracapa de um de meus livros. Eu respondi que era o padrinho da personagem. Mas como ele pode ser padrinho se ela não existe de verdade? – Perguntou-me seu colega. Respondi que personagens são como filhos e que os adultos costumam escolher padrinhos para seus filhos. Mas ela é só uma personagem! - Insistiu o menino.
Naquele momento eu me esforcei para encontrar uma resposta que, ainda que não fizesse muito sentido, acomodasse algum sentimento. A criança que habita em mim também precisa de respostas que caibam no coração. Foi então que surgiu uma imagem mental que me ajudou muito.
É comum, quando se quer explicar para uma criança o que é adoção, que utilizemos a expressão “mãe de coração”. Dizemos que existem crianças que nascem dos ventres de suas mães e outras que nascem do coração. Foi a partir dessa narrativa que inventei uma outra. Disse que existem crianças que crescem nas barrigas de suas mães, outras nos corações e tem também aquelas que crescem e nascem da imaginação. Esses pais e mães que tem filhos nascidos da imaginação chamam-se escritores.
Crianças sabem como colocar adultos em saias justas. Mas nós podemos beber do mesmo líquido que bebeu Alice no Salão das Portas e, como ela, encolher um pouco para caber nas pequenas e justas saias, conseguindo entrar, desta forma, no País das Maravilhas que é (ou deveria ser) o pensamento infantil.
Adultos que não conseguem beber da garrafinha de Alice encontram mais dificuldade para dialogar e perdem oportunidades preciosas de aprender. É uma delícia quando conseguimos estabelecer um diálogo amoroso com os pequenos, pois crianças imaginativas encontram soluções mais criativas do que os adultos para as questões cotidianas. Mas, como já afirmava o Pequeno Príncipe: “as crianças têm que ter muita paciência com as pessoas grandes”.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

O AMADO BAAL SHEM TOV

O amado Baal Shem Tov estava à morte e mandou chamar seus discípulos.
- Sempre fui o intermediário de vocês e agora, quando eu me for, vocês terão de fazer isso sozinhos. Vocês conhecem o lugar na floresta onde eu invoco a Deus? Fiquem parados naquele lugar e ajam do mesmo modo. Vocês sabem acender a fogueira e sabem dizer a oração. Façam tudo isso e Deus virá.
Depois que Baal Shem Tov morreu, a primeira geração obedeceu exatamente às suas instruções, e Deus sempre veio. Na segunda geração, porém, as pessoas já se haviam esquecido de como se acendia a fogueira do jeito que o Baal Shem Tov lhes ensinara. Mesmo assim, elas ficavam paradas no local especial na floresta, diziam a oração, e Deus vinha.
Na terceira geração, as pessoas já não se lembravam de como acender a fogueira, nem do local na floresta. Mas diziam a oração assim mesmo, e Deus ainda vinha.
Na quarta geração, ninguém se lembrava de como se acendia a fogueira, ninguém sabia mais que local  exatamente da floresta deveriam ficar e, finalmente, não conseguiam se recordar nem da própria oração. Mas uma pessoa ainda se lembrava da história sobre tudo aquilo e relatou com voz alta. E Deus ainda veio.

Conto descrito no livro o “Dom da História: uma fábula sobre o que é suficiente”, de Clarissa Pinkola Estés (Editora Rocco,1998)

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

NÃO SOMOS AVATARES

As redes sociais são espaços de grande partilha de afetos. Houve um tempo, porém, em que partilhávamos afetos mais interessantes e menos tóxicos. Pouco tempo atrás as imagens e palavras compartilhadas nos espaços virtuais pareciam fazer mais sentido. Haviam páginas de notícias falsas, mas estas já se anunciavam como isentas de verdade, deixando claro seu desejo de divertir com humor e não de inventar novas verdades, ou criar falsas narrativas para recriar a história.
O que lemos e vemos hoje nas redes sociais é que o mundo está perdendo a graça e isso não é em função do politicamente correto. Ao contrário, assistimos à normalização e à normatização do politicamente incorreto. O que antes era vergonhoso, passou a ser motivo de orgulho e ostentação. Para muitos é bacana mostrar-se agressivo, repressor, desrespeitoso, preconceituoso, racista, misógino, homofóbico, antiético, nepotista, ignorante.  As pessoas aplaudem e mitificam esse tipo de atitude e buscam argumentos para justificar o injustificável, ainda que para isso destruam a ciência, a educação, a nação, o planeta.
Não há justificativa racional para o que estamos vivendo nas redes sociais e para tudo que transbordou para fora delas. Não é racional, é apenas visceral. Abrimos mão da nossa caminhada enquanto espécie, escolhemos andar de marcha à ré com uma pressa absurda para voltar ao passado, à idade média, às cavernas. A ciência e os cientistas são todos os dias desacreditados com argumentos que não são argumentos, são opiniões de meninos mimados que ganharam o poder e agora brincam de o chefe mandou com o planeta, com a vida das pessoas, com as relações humanas, com o destino de todos nós.
Quando é que vamos entender que estamos todos no mesmo barco, que moramos todos num mesmo mundinho de recursos esgotáveis? Não somos avatares, não haverá play again depois do game over. Desmatamento, aquecimento global, degelo, acúmulo de lixo, poluição, falta se senso crítico, de comprometimento, de empatia, isso vai nos matar. É verdade que todos vamos morrer um dia, mas estamos antecipando a nossa morte e a dos recursos do planeta, por aplaudirmos e sermos coniventes com a burrice e a prepotência.  
As redes sociais são espaços de grande partilha, mas somos nós que escolhemos o que ver, ouvir, partilhar. Se escolhemos partilhar mentiras e violência é bom lembrar que a vida é um grande boomerang. E lembre-se, não somos avatares, somos pessoas dando e recebendo de volta o eco daquilo que partilhamos. Não haverá play again para a nossa geração, mas talvez possa haver para a de nossos filhos e netos. Talvez eles possam dar restart se nós iniciarmos o reset.  O controle desse jogo está em nossas mãos.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

CHARADA DE SOMAR (BRINCANDO COM PALAVRAS)

A charada de somar é uma modalidade de charada formada pela soma de palavras que se juntam para formar uma outra. Na forma mais comum de apresentação das charadas "não se utiliza o sinal matemático de adição (+) entre os números que compõem seu enunciado. Tradicionalmente é usado apenas um traço  para separar os algarismos". José Carlos Aragão, no entanto, utiliza o sinal matemático apenas para ajudar na compreensão da charada, como pode ser observado na imagem a seguir:  
Extraído do livro:Brincando com a palavra: jogos e brincadeiras para todas as idades e ocasiões, de José Carlos Aragão, Ed. Paulinas, 2003.