quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

BORA LÁ!!

Bora lá, “ano novo, vida nova”!! Vida que segue. Pra frente é que se anda, não é mesmo?!! Gosto de andar em frente. Mas, tenho medo de tropeçar e cair, se não aquietar o passo, se não souber o tempo de parar para recalcular a rota, se não olhar pelo retrovisor para evitar os mesmos erros.

Daqui, de onde olho o mundo, penso que o sentido da vida é aprender, pois (quando a gente quer, quando a gente deixa) tudo é aprendizado. Mesmo as coisas bobas do cotidiano, ou aquelas que não nos agradam, nos ensinam.

Um novo ano está começando. Mas, só será um ano incrível se tivermos aprendido com as experiências vividas. É chato iniciar o ano lembrando que ainda estamos numa pandemia? É. Mas, é porque insistimos em fazer de conta que está tudo bem, que a onda de contaminação após as festas de final de ano virou um tsunami. O vírus não está nem aí para o que a gente pensa dele, ele chega e faz o estrago. E, quanto mais a gente insiste em negligenciar a sua existência, mais ele se diverte.

Avançamos muito com a vacinação. E o estrago só não está sendo maior, porque muitos fizeram o tema de casa e se vacinaram direitinho. Muitos, porém, ainda se negam a tomar uma vacina que poderia minimizar os danos causados por esse bichinho. Não tomar vacina não é problema apenas meu, ou seu. Quando o caso é de saúde pública, o problema é todo mundo.

Tem gente que anda em frente, mas não aprende. Não olha pelo retrovisor. E quando olha, é sem óculos, sem filtro, sem vontade de aprender com os tropeços. Olhar para o passado de forma condescendente, sem análise crítica, não ajuda a melhorar a caminhada.

Há quem ainda diga: como podem os cientistas ter produzido uma vacina, de forma segura, tão rapidamente? Isso se chama avanço da ciência. Hoje temos tecnologia de ponta e a pandemia fez com que todos os esforços se voltassem para minimizar os danos causados por esse vírus.

Se queremos andar em frente, não vai ser engatando a marcha à ré, nem andando na pista contrária. Negacionismo da ciência, antivacina, birra para usar máscara, não é seguir em frente, é pisar no acelerador andando na contra mão. Então, bora lá, com máscara no rosto, vacina no braço, acertando o passo, que uma hora dessas tudo isso passa e a gente segue. Um ótimo 2022!!


 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

MAIS BOM SENSO E LUCIDEZ PARA 2022

 

Mais um ano chega ao fim. E foi um ano e tanto. Ao final do ano passado, desejei que 2021 trouxesse a vacina para a COVID-19 e também mais bom senso e lucidez às pessoas. As vacinas chegaram e salvaram muitas vidas. O bom senso e a lucidez, por sua vez, seguem “em passos formiga e sem vontade”.

Essa semana, quase dois anos após a chegada do coronavírus à Terra Brasilis, recebi um vídeo ainda defendendo o uso de vermífugos como tratamento para a COVID e depondo, sempre com mentiras sensacionalistas (é claro), contra a vacina. O Brasil é um país modelo em campanhas de vacinação. Já erradicamos doenças antes fatais, através da vacinação em massa.

De repente, no meio de uma pandemia, as pessoas resolveram questionar insistentemente a eficácia de vacinas que já provaram salvar vidas. Os argumentos são os mais frágeis: – “foram produzidas muito rápido”, dizem alguns. Sim, o mundo parou por causa de uma pandemia. Consequentemente, os cientistas debruçaram todos os seus esforços em encontrar uma vacina que pudesse minimizar os danos de um vírus novo e muito agressivo. Além da união de esforços, hoje temos tecnologia muito mais avançada do que há dez, vinte, trinta anos.

Outros dizem que “não há 100% de eficácia comprovada”. Genteim, não existe 100% de eficácia comprovada em coisa alguma nessa vida.  Além disso, as vacinas não evitam a contaminação. O que evita o contágio é o uso de máscara, a lavagem de mãos, o uso frequente de álcool em gel e evitar aglomeração de pessoas. As vacinas, por sua vez, colocam nosso corpo em melhor condição de combate, para contra atacar o inimigo invisível, caso não consigamos escapar dele.

Ao final de 2021 não é mais aceitável ficar discutindo o indiscutível. Como declarou a infectologista Luana Araújo, discutir o uso de medicamentos sem comprovação científica para tratar a COVID é "delirante, esdrúxulo, anacrônico e contraproducente [...] É como se estivéssemos discutindo de que borda da terra plana vamos pular".

Para 2022 almejo menos do que desejei para 2021, uma vez que vacinas já temos. Espero apenas que tenhamos todos mais bom senso e lucidez. Tratamento precoce é máscara no rosto, cobrindo boca e nariz. O resto, é conversa pra boi dormir. Que na contagem regressiva todos os antolhos desapareçam, que a vida siga seu curso e cada pessoa compreenda que é responsável por todas as vidas. Feliz 2022!!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

VIVA O FIM DE ANO, APESAR DA CORRERIA 😉

 

Todo ano é a mesma história, passou setembro as pessoas já começam a dizer que o final do ano está aí. Vivemos como o coelho de Alice, sempre correndo e muito apressados. Sabemos que não somos eternos. Mesmo assim, facilmente deixamos as coisas verdadeiramente importantes para depois. Deixamos para visitar os amigos quando sobrar um tempinho, para escrever uma mensagem quando terminarmos as tarefas intermináveis, para dizer que alguém é importante quando já não há mais tempo. Tocar a vida não é viver.

É fato que trabalhar é importante e necessário, que muitos temos famílias para sustentar e não dá pra perder tempo, nem dinheiro com futilidades. Mas, não estou falando de gastar tempo ou dinheiro com tolices. Falo de outros investimentos, como o tempo partilhado, a gentileza, o desejo de bom dia para um vizinho, o sorriso para a moça do caixa. De parar para brincar com as crianças, jogar conversa fora em torno da mesa, mandar um alô para os amigos. De aquietar para ler um texto, ver um filme, ouvir uma música. Falo de estarmos conectados em tempo real, com o mundo real, porque dessa vida só levaremos nossas memórias.

Fim do ano é 31 de dezembro. Ainda faltam alguns dias para que este ano termine. Mas será só o final de mais um ano, não o apocalipse. Se não conseguirmos finalizar algumas tarefas, haverá um novo ano todinho pela frente. Vale lembrar (tento me convencer disso todos os dias, mas não é fácil) que outros podem finalizar as tarefas inacabadas, mas ninguém pode viver nossa vida por nós.

Antes do fim do ano ainda temos o Natal e uma semana todinha pela frente. Penso que o importante é celebrar a vida, com a saúde que se tem - por vezes potente, outras nem tanto -, no lugar onde se está, cuidando ou sendo cuidado, acompanhado ou sozinho. Celebrar porque se está vivo, porque nessa condição ainda podemos fazê-lo.

Aproveite os últimos dias do ano. Pise no freio. Por mais que aceleremos, o ano vai acabar, o mundo não.  Viva o momento presente, seja você o presente!! Valorize as pequenas coisas, se alegre com o que é capaz de realizar. Não dependa dos outros para ser feliz, mas seja feliz com os outros, pelos outros. Que seu Natal e o fim do ano sejam bons,  em qualquer lugar, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê!!

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

A PÓS-VERDADE TORNOU O DIÁLOGO IMPOSSÍVEL

 

A arte sempre fez parte da minha vida, especialmente a música e literatura. Eu não toco nem caixinha de fósforo, mas meu pai era um exímio guitarrista e ainda arrisca seus solos no violão. A casa dos meus pais sempre foi muito musical, meu pai ouvia rock instrumental e orquestras, minha mãe gostava de Roberto Carlos e Elis Regina.  Eu virei o mix dos dois e vivi a efervescência do rock nacional dos anos 80.

Minha banda favorita, desde a adolescência, sempre foi a Legião Urbana. De todos os discos, Legião Urbana Dois é o meu preferido. Na última faixa do Legião Urbana Dois, Renato Russo canta, com sua voz grave: Quem me dera ao menos uma vez/ Provar que quem tem mais do que precisa ter/ Quase sempre se convence que não tem o bastante/ Fala demais por não ter nada a dizer.

Legião Urbana é tão anos 80 e tão 2021 que nem sei explicar. Nem precisa de explicação, é só cantar, pensar e sentir. Legião Urbana não é incontestável, mas é real demais. E ser real demais em tempos de falsas verdades, é um perigo. Talvez, por esta razão, tenta-se desacreditar a arte, a educação, a ciência, bem como os artistas, os educadores e os cientistas.

Que mundo bacana seria este se nossos jovens aprendessem a ler e compreender o que leram em livros, letras de músicas e obras de arte. Se esse exercício de ler e presumir, ouvir e discutir, observar e refletir, fosse uma constante na vida cotidiana de nossas crianças e jovens, seria suficiente para que soubessem distinguir realidade de ficção, metáfora de pensamento concreto, verdades de falsas verdades. 

Em 2016 o Dicionário Oxford cunhou um termo que resume esses tempos estranhos e paranoicos que andamos a viver no Brasil e no mundo. A pós-verdade (post-truth) denota circunstâncias em que os fatos objetivos têm menos influência na opinião pública que o apelo às emoções e às crenças pessoais. 

Em tempos de Fake News já não importa que a notícia veiculada seja falsa, contanto que ela se encaixe no que eu acredito, naquilo que eu sinto que deva ser a verdade. Penso que essa é a síntese da pós-verdade. No mundo da pós-verdade já não são os fatos que organizam as coisas e sim as percepções e os sentimentos, por mais absurdos que eles possam ser.

Em época de pós-verdade, não há como contestar qualquer argumento com fatos ou evidências científicas, uma vez que esta se sustenta em achismos e não em evidências. A pós-verdade tornou o diálogo impossível. O mundo evoluiu até aqui com a ciência porque ela é questionável, porque suas verdades não são absolutas. Mas no mundo da pós-verdade, se eu achar que é, então é. E não há como contradizer isso, pois eu não preciso provar nada, preciso apenas sentir que algo é verdade. Tudo que a pós-verdade não é, é libertadora. 

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

AS CORES E AS CAUSAS DE SETEMBRO

Setembro é um mês que invade os sentidos. Chega trazendo o cheiro das flores de laranjeira, o canto dos pássaros em festa, as cores das azaleias, dos ipês e das orquídeas.  É um mês de muitas cores, muitos sons, muitos sentidos e significados. A definição de significado, porém, não é simples, pois tem relação com reconhecimento, com apreço, com importância. E importância, é juízo de valor. O que é importante para mim, pode não ser para você que me lê. Do mesmo modo, algo pode ter um significado para mim e outro para você. Mesmo com visões e percepções diferentes de mundo, creio que, tanto para mim quanto para você, a vida tem algum valor. Podem ser valores distintos, mas o fato é, se não estivéssemos vivos, não estaríamos aqui nessa troca de palavras.

O mês de setembro, que traz tantas cores à natureza, traz para nossas agendas, não apenas o amarelo dos ipês floridos, mas o amarelo que nos lembra da necessidade de reflexão sobre a saúde mental. A campanha diz que setembro é o mês de prevenção ao suicídio. Mas, prevenção é algo que precisa ser pensado antes. Não existe enfrentamento ou resolução de problemas sem diálogo franco, sem escuta atenta e compreensão dos fatos, sinais e sintomas.

Mas, nem só o amarele colore as agendas deste mês. Setembro é verde também. Com o intuito de chamar a atenção da população sobre a importância da inclusão das pessoas com deficiência. A campanha Setembro Verde reforça a importância da acessibilidade e da inclusão social, que possibilita dar a todas as pessoas os mesmos direitos e oportunidades. A cor verde traz consigo também a esperança de vida que advém da doação de órgãos e do diagnóstico precoce do câncer de intestino. O vermelho também chega para colorir a agenda do mês de setembro e marcar as campanhas de conscientização, prevenção e tratamento das doenças cardiovasculares.

Muitas outras cores devem colorir este mês, que traz consigo o início da estação mais florida do ano e também a esperança de que dias melhores virão. Mas, o fundamental é que, conscientes ou não das causas levantadas e sinalizadas por cada cor, não esqueçamos que valorizar a vida é fundamental e que, todas as vidas importam. 

 

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O PARADOXO DA SEREIA E OUTROS PARADOXOS

 

Em 1994 Gilberto Gil escreveu sobre a novidade que  “veio dar à praia, na qualidade rara de sereia [e que tinha] / metade o busto de uma deusa Maia/ metade um grande rabo de baleia”. Cantava e contava ele sobre o paradoxo daquela novidade estendida na areia, já que muitos sonhavam com seus beijos de deusa e outros desejavam seu rabo pra a ceia. Gil é genial com suas palavras que brincam ao olhar para as incongruências do mundo e do humano e nos faz pensar sobre outros tantos paradoxos criados por nós.

A quarta semana do mês de agosto desperta em mim sentimentos e pensamentos que podem parecer paradoxais, mas que são absolutamente complementares. Entre os dias 21 a 28 de agosto, acontece a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, com o objetivo de abrir debates e colocar a sociedade em reflexão sobre questões que envolvem inclusão e igualdade de direitos e oportunidades.

Logo no comecinho da Semana Nacional da Pessoa com Deficiência, é celebrado também o Dia do Folclore. E qual a relação entre o Dia do Folclore e a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência? Talvez nenhuma. Mas, como relação é algo criado pela mente, a partir da nossa percepção de mundo e, como habita em mim, ao mesmo tempo, a fisioterapeuta e a contadora de histórias, acabo por brincar com a imaginação tecendo relações que me acolhem e são acolhidas por mim.

Você já reparou que muitos dos personagens do folclore brasileiro trazem em seus corpos marcas distintas, que aqui no mundo real chamamos de deficiências? Ao Saci falta uma perna, à Mula sem Cabeça falta a cabeça, o Curupira tem os pés voltados para trás e a Iara um rabo de peixe. A Semana Nacional da Pessoa com Deficiência e o Dia do Folclore não tem relação direta. Mas poderiam ter, na medida em que ambos nos chamam à reflexão para lembrar daquilo que nos torna verdadeiramente humanos, a memória, o respeito, a empatia e o cuidado.

Ao falar sobre o paradoxo da sereia, Gil canta e conta também sobre a desigualdade que coloca  De um lado este carnaval, de outro a fome total” . E se fôssemos capazes de sonhar e criar um mundo menos desigual, com mais respeito e empatia entre todos os seres? Talvez, se acreditássemos nas pessoas como as crianças pequenas acreditam nos seres fantásticos, sem questionar suas potencialidades, apesar de suas diferenças físicas, fôssemos capazes de aprender mais uns com os outros e fazer mais uns pelos outros.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

ALZHEIMER SOCIAL: SOBRE O DESMONTE DA FUNDAÇÃO PALMARES

 

Minha avó materna conviveu muitos anos com o Mal de Alzheimer. Vi sua memória ir se deteriorando lenta e progressivamente. Certa vez, depois de muitos anos do início dos sintomas, ela pegou na minha mão e, sabendo de que havia um bom afeto EM nossa relação, disse: - a gente não é parente, mas o importante é que a gente se gosta. Retribui o carinho na mão e respondi que sim, que o importante era que a gente se gostava. Ouvindo essa história com certa distância, até parece uma cena engraçada. Mas, é muito triste ver alguém perdendo sua identidade.

O Iván Izquierdo, reconhecido pesquisador do campo da memória, certa vez falou que nós somos as memórias que temos. De fato, nossa identidade não está num documento, está no que sabemos sobre nós mesmos, naquilo que faz com que cada um de nós se reconheça como sujeito único no mundo. Um cérebro que já não consegue produzir e armazenar essas informações é um cérebro doente.

Em uma família minimamente funcional não descartamos nossos pais e avós porque estão desatualizados, ou porque usam expressões antigas no seu modo de falar. Eles são a memória de um tempo que explica muito de quem somos neste momento. Uma pessoa, ou um país sem memória estão doentes.

Esta semana fomos informados de que a Fundação Palmares retirou de seu acervo pelo menos 5.300 livros, por considerá-los, entre outras coisas, velhos e em desacordo com as normas ortográficas vigentes. Entre os títulos, está o ‘Dicionário do Folclore Brasileiro’, obra clássica do historiador Câmara Cascudo, que segundo a comissão analisadora, é "um livro não só gramatical e ortograficamente desatualizado, mas com páginas soltas e exibindo um forte cheiro de mofo".  Foram retirados também exemplares das obras de Machado de Assis, por acreditarem que estes prestam um "desserviço" aos estudantes, já que apresentam Português desatualizado.

O Mal de Alzheimer é uma doença orgânica. Por esta razão não tentei explicar para minha avó que eu era sua neta mais velha, apenas respeitei o seu momento e retribui o afeto. Nenhum de nós quer conviver com o Alzheimer, seja como paciente ou como familiar. Também não quero conviver com nada que afete ou apague as minhas memórias, ou as memórias da minha gente.

Não se muda o rumo da história, apagando as memórias de um povo. Mirar o futuro sem preservar o passado é como andar num veículo sem espelho retrovisor. Tentar pilotar um carro sem retrovisor é imprudente e muito perigoso. Um carro sem espelho retrovisor está com problema, um país onde arrancam seus espelhos também está com sérios problemas.  Prevenção é o caminho para minimizar o impacto de qualquer doença, seja ela orgânica ou social.